Início > Religiões e crenças > O ateísmo visto pelo islã > O Alcorão e o Big Bang
"Os céus e a terra eram uma só massa": o que diz o versículo, como os tafsirs o leram antes da ciência moderna, e por que não é preciso nem superinterpretá-lo nem desprezá-lo.
O Alcorão diz: "Não vêem, acaso, os incrédulos, que os céus e a terra eram uma só massa, que desagregamos" (Alcorão 21:30). Muitos vêem aí uma convergência com a ideia de um universo que teve um princípio único.
O tafsir clássico, anterior à cosmologia moderna, o lia como a criação primeira e depois a separação dos mundos.
A regra justa: acolher a convergência sem fazer do Alcorão um manual de cosmologia.
Sumário:
Atualizado em 18 outubro 2026 às 05h42
📖 2 min de leituraO versículo se dirige primeiro aos negadores: "Não vêem, acaso, os incrédulos, que os céus e a terra eram uma só massa, que desagregamos, e que criamos todos os seres vivos da água? Não crêem ainda?" (Alcorão 21:30).
Duas palavras carregam o sentido: "ratq", o que é cosido, unido; "fataq", o que é rasgado, separado. O versículo afirma uma origem comum, seguida de uma separação que produziu os céus e a terra, e ele liga essa origem à vida vinda da água.
O seu argumento final é o apelo a crer: quem constata uma origem única não pode razoavelmente negar um Criador.
Ponto de honestidade: os exegetas clássicos, bem antes do século XX, liam esse versículo sem as ferramentas da cosmologia moderna. A maioria falava da criação inicial dos céus e da terra e depois da sua distinção, certos de um céu ainda em "gases" (Alcorão 41:11) antes de ser moldado. Nenhum escrevia "explosão primordial": a leitura em termos de princípio do universo se esclareceu a posteriori, quando a física estabeleceu que o nosso universo tem uma história, um princípio, e não uma eternidade estática.
É esse deslizamento que torna o versículo tão discutido hoje: o texto afirma desde sempre um princípio, num mundo que o negava.
Dois excessos se enganam igualmente. O primeiro: exagerar ("o Alcorão descreve o Big Bang") e ligar a revelação a modelos científicos que mudarão, expondo a fé à próxima revisão. O segundo: desprezar ("pura coincidência") e ignorar que o texto afirmava um princípio único quando a eternidade do mundo passava por evidência filosófica.
O caminho justo cabe numa linha: o Alcorão não é um manual de cosmologia, ele diz que o universo tem uma origem intencional, e cada descoberta a confirma no seu princípio, não nas suas equações.
O imenso céu construído "com poder e perícia" (Alcorão 51:47), a vida vinda da água, cada versículo se oferece à leitura do cientista como à do crente. A revelação, ela, não mudará: nada foi negligenciado no Livro (Alcorão 6:38), e é o próprio Allah o seu Guardião: "Nós revelamos a Mensagem e somos o Seu Preservador" (Alcorão 15:9). As páginas existência de Deus e o islã e a ciência prolongam o assunto.
O Alcorão não emprega o vocabulário científico moderno e não se apresenta como teoria física: o versículo 21:30 afirma uma origem única dos céus e da terra. A convergência com um universo que começou é real e notável, mas a prudência se impõe: a ciência afina os seus modelos, a revelação não os segue (Alcorão 15:9).
O versículo 51:47 descreve o céu: "E construímos o firmamento com poder e perícia, e Nós o estamos expandindo". O verbo árabe se compreende como estender ou dar larga potência. Muitos vêem aí um eco da expansão, os tafsirs clássicos liam aí uma imensidão crescente. Mesma prudência: é um sinal que convida a refletir, não uma fórmula de observatório.